SAY GOOD-BYE, DUDE!

março 22, 2010

“Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone”

Engraçado que desde 2001 quando perdi minha mãe, perdi também muitos sentimentos e sentidos. Perdi o medo da morte. Perdi o prumo. Perdi o norte. Sabe quando a gente desmagnetiza e passa a acreditar que nada mais faz sentido. Me encontrei no meio de uma floresta tropical, numa clareira; sozinho. E nestas florestas todos sabemos o quanto chove. Mas foi ali que tudo fez um enorme sentido. Ali perdi o desejo pelo fim aos 40; na verdade, não importa se será aos 39, aos 40, aos 60 ou aos 110 anos, o que passou a importar é quem (ou quems!) vai estar ao meu lado na hora da despedida… ou o mais importante, como ela será!

Há duas semanas acreditei de fato que havia chegado o fim. Enquanto estava ali lutando pra não me afogar, me senti, dramaticamente, naquelas cenas cinematográficas batidas de “filminho da vida passando frente aos meus olhos”; e pensei: não tenho mais forças mas valeu cada erro e acerto vividos até aqui. E quando finalmente sai da água, um novo pensamento me roubou num susto, como um beijo de salva-vida: tenho muito ainda que repetir desta História e viver.

Imagina ter morrido ali sem poder compartilhar do prazer dos risos do Nelson; as sabedorias divertidas do Flavinho; dos abraços carinhosos do Fabricio; do afago do Willian; das orelhinhas caidas do Zé; do estalar-de-ossos do outro Zé, o Ávila; do beijo do amor; da beleza que há em cada amigo, especial e que me foi presenteado pela vida, como uma jóia rara achada no mais profundo fundo do mais profundo oceano.

Acho de fato que a morte faz parte da vida. Ela não precisa se valer da eternidade da alma pra dar razão a nossa existência, mas é bom sabe-la ali, parada, a espreita, sussurrando que há felicidade aqui. De verdade, ela dói quando finalmente convida pro seu passeio e nem mesmo a senhora memória e os livros de história ou os filmes de recordação podem compensar o vazio. Então por isso que vale a pena saber-se viva, a morte. E eu sempre tive esta proximidade mórbida com ela – que engraçado. Logo ela que me levou quase tudo. Mas quem disse que quando se vão os anéis ficam os dedos? anéis não se recuperam, dedos novamente se enfeitam. E a vida, sempre ela, cheia de Sol, me apresentou a um novo Marcos que foi se moldando nesta década, que de longe é a melhor de toda a minha vida. A minha infância madura.

Aprendi nestes dias saborear o prazer de cada novo amigo que chega. A cicatrizar todas as magoas e feridas. A recontar a minha história. A fazer o bem sem olhar a quem. Como é bom quando se pode olhar pra tras e ver remendos na sua vida. Remendar é preciso pra se viver melhor. E não se pode temer e deixar de se remendar sempre. Ninguém erra porque quer, nenhum erro é pra sempre. Vale olhos atentos por buracos e remendos, recontagens, revisões…

Eu me reviso a cada manhã. E sinto que ainda que não vá longe esta vida, é somente com esta que posso contar. A morte está a espreita, sem sofrimento, sem tristeza, mas é bom que ela saiba que tenho ainda muito o que contar… então melhor ela mesma se pôr sentada e aguardar quientinha ali… afinal, como minha avó dizia: “de pé cansa!”

“Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo do dia que passou
Mas tenho muito tempo
Para acabar com essa indecisão
Espero sinceridade e perigo

Todos os dias tento chegar em algum lugar
Só pra depois dizer que não quero ficar lá
Não é coincidência
Essa minha indiferença
É que está me faltando motivo
Responsabilidade me deixa sem saber
Qual é a interferência
Ou como deve ser

Todos os dias quando eu deito pra dormir
Fico pensando em todas as coisas que eu não fiz
Só não penso no futuro
Sempre com uma leve preocupação
Se não lembrar qual foi o aviso

Todos os dias quando eu tento esquecer
Todas as coisas que eu não quero mais fazer
É só inconsequência
O tempo continua com a oscilação
E eu não consigo ficar indeciso
Pontos de referência
Perdi meu referencial
E quase como sempre não foi proposital”

***

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